Convencional, hidropônico ou orgânico – qual a melhor escolha para o bolso, para a saúde e para a natureza?
Maio 13, 2008
Estas opções ainda confundem tanto o consumidor como o próprio distribuidor. Nos supermercados, é comum ver produtos hidropônicos colocados ao lado de orgânicos e pessoas que ainda os consideram semelhantes. Também é possível perceber consumidores passando longe das gôndolas de orgânicos com medo de seus preços maiores.
por Gilmar Dall´Stella e Ana Cristina Stabelito
Quem desconhece a lógica do preço relativo pode realmente achar que o preço dos produtos orgânicos é maior (20 a 30%) do que dos convencionais. Mas é impossível comparar preço sem comparar a qualidade e não contabilizar a economia quando não se têm gastos com remédios e/ou hospitais (de tempo e de dinheiro). Sem contar que um produto saudável dá mais energia e disposição a quem o ingere. Olhando sob esse prisma, a diferença de valores entre um e outro fica infinitamente grande mesmo.
Mas para comparar, é importante conhecer bem cada sistema. O convencional não requer grandes explicações, pois é do conhecimento geral que são usados adubos, fertilizantes e inseticidas químicos para combater pragas e aumentar a produção. No hidropônico, a produção é feita na água com a utilização de adubos químicos altamente solúveis, inseticidas, fungicidas e alto teor de nitrato, que poluem as águas em função dos elementos químicos residuais. Já a agricultura orgânica, que considera o solo como um organismo vivo, não utiliza agrotóxicos e, ao contrário da convencional que tenta controlar o mato com a utilização de herbicidas, considera-o como um amigo e o utiliza a seu favor. Conceitos bem distintos, que resultam em produtos extremamente diferenciados.
Uma diferença que a população já começa a perceber. Uma pesquisa de opinião pública, realizada pelo Instituto Gallup no município de São Paulo, mostrou que os compradores de legumes e verduras já têm consciência da toxicidade dos produtos cultivados com agrotóxicos e da dificuldade de produzi-los sem eles. Por isso, admitem pagar de 20 a 30% mais pelos produtos orgânicos.
A quantidade de resíduos de produtos nos alimentos é medida em partes por milhão (ppm). Exemplo:
- quando o limite máximo de resíduos no alimento é estabelecido em 0,1 ppm, significa que para cada 1 milhão de gramas do alimento é permitido que se encontre no máximo 0,1 grama de resíduo do princípio ativo do produto fitossanitário.
Para se ter uma idéia de quanto representa 0,1 ppm é como se localizasse a décima parte de um milímetro numa régua com um quilômetro de extensão. Embora os alimentos sejam considerados seguros segundo estas referências, de acordo com a Organização Mundial de Saúde – OMS, as intoxicações agudas provocadas pela ingestão de agrotóxicos giram em torno de três milhões anuais, com 2,1 milhões de casos só nos países em desenvolvimento. O número de mortes atinge vinte mil no mundo – catorze mil nas nações do terceiro mundo. Mas os especialistas acreditam que os números reais devam ser ainda maiores devido à falta de documentação a respeito das intoxicações subagudas – causadas pela exposição moderada ou pequena a produtos de alta toxicidade, pelo aparecimento lento e pela sintomatologia subjetiva – e das intoxicações crônicas, que requerem meses ou anos de exposição e, tardiamente, revelam danos como neoplasias.
Em agosto de 2004, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – divulgou um relatório de indicadores de Desenvolvimento Sustentável, que revelou que o uso de agrotóxico no país cresceu 22%, indo de 2,3 kg/ha para 2,8 kg/ha. O Brasil está entre os seus maiores usuários, perdendo apenas para a Holanda, a Bélgica, a Itália, a Grécia, a Alemanha, a França e a Inglaterra, segundo dados do Sindicato Nacional das Indústrias de Defensivos Agrícolas – SINDAG.
Em 1999, dados significativos do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas – SINITOX, da Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, acusavam os agrotóxicos de serem responsáveis por 10% dos casos de intoxicações registrados pelo órgão, atingindo 6.710 pessoas. A porcentagem era inferior apenas às intoxicações medicamentosas, com 18.824 casos (28% do total). No ano 2000, o número subiu para 7.914 casos – 11% em relação ao total de intoxicações – e resultou em 149 mortes. Atualmente, estima-se que cinco mil trabalhadores morram ao ano no Brasil, vítimas de agrotóxicos.
O consumidor impõe as regras do mercado quando opta pelo produto orgânico ou convencional. Por isso, a meta dos produtores eticamente conscientes é aumentar o número de consumidores também conscientes sobre a real importância dos alimentos verdadeiramente saudáveis, que promovem a saúde humana (preserva inclusive a do agricultor) e respeitam o meio ambiente.
As estatísticas atuais são positivas e otimistas. O presidente da International Federation of Organic Agriculture Movements – IFOAM, Gunnar Rundgren, estima que, nos dias de hoje, o mercado agrícola orgânico movimenta de US$ 23 a 25 bilhões de dólares, podendo alcançar nos países desenvolvidos de 29 a 31 bilhões de dólares, com uma taxa anual de crescimento (estável há vinte anos) de 10 a 20%. Rundgren também afirma que na Alemanha cerca de 70% do mercado de ‘baby food’ já é orgânico, devendo chegar a 80 ou 90% em breve, o que demonstra a preocupação dos pais com a saúde de seus filhos.
O hábito de consumir alimentos orgânicos pode ser adotado gradativamente. Se cada família começar a introduzir uma pequena porcentagem de produtos orgânicos nas suas refeições, além do custo superior de 20 a 30% não pesar no orçamento doméstico, esse consumo estimulará o crescimento da produção e resultará numa crescente redução de preços.
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